QUER PAGAR QUANTO? (Ensaio sobre o preço das nossas escolhas)

Quer pagar quanto?

(Por Michel Cutait)


O título pode sugerir uma propaganda de eletrodoméstico, mas não se engane, ele só tem sentido porque esta é uma pergunta crucial para entendermos as contingências das nossas opções e das escolhas que fazemos em nossas vidas e que repercutem diretamente nas circunstâncias em que vivemos.


Não é complicado percebermos que nossas decisões acarretam num preço, mas compreendermos esta relação de causa e efeito, bem como aceitarmos nossas contingências e os riscos que delas decorrem parece ser algo etéreo, utópico e idealista. E é para isso que serve a pergunta do título. Uma pergunta pessoal, íntima, individual: Quer pagar quanto?


Quer pagar quanto por um amor rebelde e incontrolável? Quer pagar quanto por uma vida independente e livre? Quer pagar quanto por arriscar todas suas fichas e seu dinheiro num negócio inseguro e imprevisível? Quer pagar quanto por ofender, desrespeitar e humilhar os outros? Quer pagar quanto por escolher a solidão? Quer pagar quanto para conseguir tudo que a vida oferece de bom? Quer pagar quanto por uma vida tranqüila, calma e prazerosa? As perguntas não parecem terminar, porque nossas vontades e nossos objetivos são proporcionalmente imensos se considerarmos esta relação de causa e efeito.


A idéia destas perguntas não é o próprio questionamento em si, mas sim o despertar crítico e consciente das suas respostas. Ou melhor, das nossas próprias respostas.


A compreensão e consciência da nossa realidade e das nossas circunstâncias são libertadoras porque nos revelam uma clareza, uma justeza e uma natural percepção de que nossa vida é feita de uma série de atos, escolhas e decisões que repercutem outras tantas conseqüências possíveis e infindáveis.


A tentativa e o erro (e por que não o acerto) parecem ser um bom expediente (ou instrumento) para sabermos se uma empreitada ou outra podem causar determinada conseqüência, porque aprendemos com o erro e por mais clichê que isso pareça, o fato é que o ser humano por uma série de fenômenos físicos e químicos aprende que certas tentativas geram certos resultados, alguns acertos e muitos erros também, e que em nossas estatísticas íntimas, conscientes, instintivas ou inconscientes acabamos descobrindo que agir de uma forma pode ser melhor do que outra.


Mas esse não é o foco principal da pergunta, porque ela busca a resposta que precisamos descobrir para compreendermos um pouco das nossas tristezas, das nossas decepções, das nossas frustrações e das nossas angústias, ela busca a compreensão das conseqüências da relação da causa e efeito.


Muitas das nossas opções e das nossas escolhas têm sido dificílimas porque já não nos contentamos com tão pouco. Por exemplo, já não basta um amor, precisa ser um amor completo, com o calor da paixão, a segurança da estabilidade, o prazer da alegria, a facilidade do natural e espontâneo, o entusiasmo da juventude, a emoção das tormentas, a leveza do sorriso, tem que ser um amor que nos torne pessoas melhores, não é?


E se optamos por encontrar um amor assim, nossas chances ficam cada vez menores porque as exigências que fazemos, o funil das nossas preferências e o preço das nossas conveniências têm nos trazido conseqüências caras, e a maior delas, nesse caso, parece ser a solidão.


Quer pagar quanto por tanta exigência? A solidão é um preço bem provável. A solidão do quarto silencioso, do abismo que ecoa em seu coração, da lágrima sôfrega que inunda o travesseiro, a solidão da certeza de que faríamos alguém feliz, da suplica esperançosa por nos fazerem mais felizes ainda, enfim... a solidão de quem escolhe, prefere e opta por viver um amor de verdade, custe o preço que for.


E não é um preço fácil, não mesmo. A solidão que sentimos enquanto não encontramos alguém que nos desperte um amor tão completo é o preço da nossa decisão de viver um amor assim.


O primeiro passo depois da pergunta é reconhecer, aceitar e compreender que nossas opções e nossas decisões têm seus preços, que pagaremos inexoravelmente, mais cedo ou mais tarde, porque tudo é causa e toda a causa gera um efeito.


Mas não nos basta a compreensão do preço que temos que pagar por nossas escolhas, ainda assim temos a oportunidade de reconhecermos que se tomarmos decisões flexíveis, se agirmos com parcimônia, se abrirmos mão de todas as qualidades que engessamos no ideal do amor que nem encontramos ainda, se formos menos exigentes, ou menos arriscados, ou menos impetuosos, então teremos conseqüências menos custosas, e o preço a pagar não será tão alto assim.


Tudo não passa das escolhas que fazemos em nossas vidas, mas se preferimos isto ou aquilo estejamos preparados para o preço que teremos que arcar, e se estivermos conscientes e bem esclarecidos quando tivermos que pagar esse preço, então o sofrimento deve diminuir, não porque a dor e o sofrimento da perda, do erro, da tentativa frustrada ou das conseqüências não sejam difíceis, porque são (e só cada um de nós sabe como é a intensidade da nossa dor), mas principalmente porque poderemos aceitar, assumir e reconhecer que a mesma liberdade que nos permite escolher é que nos faz pagar os preços das nossas decisões.


E o melhor de tudo: conseguiremos descobrir que ser livre para escolher, para arriscar, para tentar e para acertar não tem preço que não possamos pagar!

SOMOS DE QUERATINA (Ensaio sobre como podemos nos recuperar dos infortúnios da vida)

Somos de queratina!

(Por Michel Cutait)


A natureza tem soluções incríveis para resolver problemas e permitir a evolução, o crescimento e a liberdade dos seres vivos. Essas soluções podem servir de lição e de exemplo para todos nós. Uma delas é o fenômeno dos artrópodes. Ou melhor, o fenômeno do crescimento dos artrópodes.


Há diversas espécies de artrópodes, entre lagostas, camarões, insetos, e uma infinidade de outros. Mas o que interessa nesta metáfora é o processo de crescimento desses animais, porque pode nos revelar uma compreensiva solução para muitas das nossas situações que exigem nossa força, nossa coragem e nossa vontade de dar a volta por cima, de recomeçar, de levantar dos tombos da vida e de voltar a sermos livres.


Aí que entra o fenômeno do crescimento dos artrópodes. Eles desenvolveram um mecanismo muito interessante para solucionar o problema do crescimento. Esses animais são protegidos por um esqueleto externo (exoesqueleto) que os envolve como uma poderosa armadura. Uma armadura feita, principalmente, de queratina e quitina, que são substâncias muito resistentes, rígidas e duras. Mas como os artrópodes fazem para crescer e romper essa “armadura” de queratina?


Para conseguirem crescer, esses animais passam por um processo de transformação que consiste num grande esforço para reduzirem sua massa corpórea, diminuírem de tamanho interno, voltarem a sim mesmos, economizarem energia, e começarem a desenvolver uma nova camada dessa “armadura”. Neste ponto, a nova casca é interna e ainda é muito mole e desprotegida, mas isso permite que o animal tenha amplitude para crescer e se desenvolver, até que, em determinado momento, ele rompe a casca antiga, vencida, sofrida e desgastada e abandona sua “armadura”.


Livre do esqueleto antigo, ele passa viver com sua nova casca que não lhe oferece tanta proteção porque ainda está frágil e em processo de consolidação, mas, passado certo tempo (que, nos artrópodes, costuma ser breve), a nova casca está maior, mais resistente e mais poderosa que a antiga. Enfim... o animal consegue crescer e se tornar melhor, mais preparado, protegido e mais forte para enfrentar as adversidades da sua vida.


Nós somos assim também, nós também somos de queratina!


Quem de nós nunca enfrentou uma situação de perda, de desfalque, de sucumbência? Quando perdemos um grande amor e ficamos com o coração rendido, órfão e desconsolado? Quando investimos nossa dedicação, nosso amor e nosso tempo na vida de outra pessoa e ela não nos corresponde? Quando somos enganados, trocados, traídos, humilhados? Quando nosso projeto de vida se esmorece pela tormentosa e imprevisível ocorrência de fatos negativos? Tantas situações são possíveis para nos derrotar, que precisamos estar preparados, prontos e conscientes de que somos capazes de recomeçar, de lutar e de voltar a sermos livres e fortes.


Nessas situações, tudo que seja possível fazer para crescermos, retomarmos as rédeas da nossa vida, superarmos nossos obstáculos e sermos pessoas melhores, mais fortes e mais preparadas para enfrentar o que vier pela frente será muito importante para continuarmos íntegros, ilesos ou continuarmos firmes. Então lembremos do crescimento dos artrópodes.


Por exemplo, quando somos enganados, traídos, abandonados pela pessoa que investimos nosso amor, por quem fizemos juras de fidelidade e com quem sonhamos compartilhar nossa vida, imitar os artrópodes pode ser uma solução muito libertadora, segura e eficiente.


Então, sejamos tolerantes, indulgentes, parcimoniosos e humildes com nossa perda e deixemos nosso coração se recuperar, voltemos a nós mesmos, deixemos o tempo desdizer o passado, juntemos todas nossas forças, economizemos energia e lutemos para voltar a crescer.


Às vezes, precisamos diminuir de tamanho para sermos capazes de voltar a crescer, às vezes precisamos dar um tempo para nosso coração conseguir se recuperar, às vezes precisamos aceitar nossas perdas e reorganizar nossas íntimas vontades para podermos nos tornar pessoas mais fortes, mais vigorosas, mais resistentes e mais preparadas para a vida, exatamente como os artrópodes.


Pode ser que esse processo leve um mês, pode ser que leve seis meses ou mais que um ano, cada um de nós tem seu próprio tempo de recuperação, mas se nos permitimos a isso e reconhecermos em nós mesmos que temos todos os recursos necessários para superarmos todas as adversidades, seja no amor, seja no trabalho, seja na vida, certamente, teremos uma chance de conseguir trocar a “armadura” do nosso coração e voltarmos a ser felizes, realizados, capazes e vitoriosos.


E com um coração maior e mais resistente, poderemos aproveitar as novas oportunidades, desfrutar incríveis descobertas, viver nossa inexorável liberdade de tentar novamente, de tentar de uma forma diferente, e poderemos aprender que também somos de queratina, e que não há nada nessa vida que não nos faça capazes de superar, de crescer e de sermos cada vez melhores.