Prioridades.
(Por Michel Cutait)
Não encontrei uma forma melhor e mais direta de manifestar minha preocupação sobre um fenômeno social e coletivo que está se instalando entre todas as pessoas, seja no ambiente do trabalho, seja no ambiente familiar, e, de uma maneira ainda mais cruel, no ambiente íntimo, pessoal, naquele espaço único que cada um pode chamar de “eu”.
Prioridades.
Essa palavra traz em si mesma a resposta do que significa, que é aquilo que vem primeiro, aquilo que prefere a todas as outras coisas.
Existe uma crise séria de prioridades entre as pessoas, e ninguém mais está conseguindo perceber e enxergar aquilo que deve vir primeiro, aquilo que é mais importante, aquilo que deve preferir às outras coisas.
Há um conflito silencioso, torpe, ardiloso que ronda a todas as pessoas, que é o conflito entre aquilo que importa e aquilo que não importa, basicamente, o conflito entre preferir o importante em detrimento daquilo que não tem significado ou que tem, mas cujo significado é menos relevante do que aquilo que é prioritário.
Há pais que priorizam seus trabalhos ao invés de sua família.
Há filhos que fazem tudo para agradar um amigo, e maltratam os próprios pais.
Há esposas que priorizam a vida dos outros, ao invés de dar valor para a própria vida.
Há maridos que preferem a vida de solteiro, ao invés de preferir a vida de casado.
Há chefes que priorizam o consultor, ao invés de preferir seu próprio empregado.
Há empregados que priorizam os que saíram do que aqueles que ficaram junto dele.
Há amigos que preferem os amigos que estão no celular em algum lugar do mundo do que aproveitar aqueles amigos que estão ao lado.
Há irmãos que preferem ajudar ao vizinho do que ajudar ao próprio sangue.
Há vizinhos que ajudam as vítimas de uma catástrofe do outro lado do mundo ao invés de ajudar ao próximo vizinho.
Há empresas que preferem os clientes que não tem, do que priorizar os clientes fiéis e cativos.
Há um conflito de prioridades tão cruel e terrível, que endêmico e generalizado, toma conta de nós mesmos, e nos conduzem à inversão de tudo que é importante, prioritário e relevante.
Com absoluta certeza, tanto você como eu, e todos nós, já estivemos diante desses conflitos, e mal percebemos aquilo que estamos fazendo com nossas vidas. E só para ser solidário, agora, aqui, escrevendo estou dando prioridade a um texto que, possivelmente não terá importância alguma, enquanto poderia estar trabalhando.
Mas, o pior e mais sofrível das crises de prioridades, é a o conflito entre o “eu” e o “outro”.
Quando você desloca seus sentimentos para o outro, como se o outro fosse capaz de lhe fazer melhor ou mais importante do que você já é, a bussola da sua prioridade está certamente virada ao avesso. Quando você dá mais atenção aos problemas do outro, ao invés de tentar resolver os seus próprios problemas, há uma crise profunda de prioridades em sua consciência. Quando você faz para o outro aquilo que deixou de fazer para si mesmo, e ainda espera que o outro reconheça aquilo que você mesmo deveria reconhecer em si próprio, há uma inversão e ilógica de prioridades. Quando você espera do outro as respostas para suas próprias dúvidas, ao invés de descobrir suas próprias certezas, fatalmente, suas dúvidas ficarão ainda maiores.
Então, se há algo que todos nós, cada um de nós, possa fazer em benefício daquilo que é prioritário, comece agora.
Se você for pai, pare de trabalhar por um instante e vá ver seu filho que está sozinho no quarto brincando com um video-game por falta da sua companhia.
Se você for filho, antes de maltratar seus próprios pais, reconheça neles as pessoas que mais querem o seu bem, e trate-os bem.
Se você for esposa, veja a quantidade de coisas valiosas e especiais na sua vida, coisas que ninguém mais do que você poderá usufruir.
Se você for marido, olhe para seu casamento, e perceba que você encontrou tudo aquilo que você perseguia quando era solteiro.
Se você for chefe, pague mais para o seu empregado, capacite ele para que ele se torne um profissional melhor, e certamente você não precisará de consultores.
Se você for empregado, perceba que quem está de fora, deixou mais oportunidades para quem está dentro, então, aproveite essas oportunidades para o bem da sua empresa, e, obviamente, para seu próprio bem.
Se você está com seus amigos agora, largue esse aparelho, olhe nos olhos das pessoas que estão prestigiando você, e ria com elas as histórias que vocês experimentaram juntas.
Se você tiver irmãos, pergunte para ele se ele precisa da sua ajuda, e se precisar, seja tão generoso quanto você tem sido com seu vizinho ou mesmo com seu melhor amigo.
Se você está pensando no bem da humanidade, e se comove com as vítimas da catástrofe de um lugar qualquer, preste um pouco só de atenção, e veja que na rua da sua casa, no seu bairro, na sua cidade há diversas pessoas precisando da sua comoção, e mais que isso da sua ajuda, pois certamente, de você ajudar o seu próximo, logo algum próximo ajudará aquela vítima lá longe.
Se você for um executivo de empresa, não esqueça que seu melhor ativo são seus clientes, não aqueles que você ainda não tem, mas aqueles que, anos após anos, prestigia o seu produto, e esses clientes merecem ainda mais atenção do que aqueles que você ainda não conquistou, mesmo porque, se você não fizer isso, logo haverá outro como você, que conquistará seu cliente para ficar para ele.
E se você puder olhar por um instante para dentro de si mesmo, para o seu redor, para a sua vida, e fizer isso com olhos sinceros, generosos e atentos, verá que tudo que você fez e faz na sua vida é melhor do que qualquer outra pessoa poderia fazer por você, e mais que isso, que todo o reconhecimento que você precisa é o reconhecimento próprio, de você para você, para aceitar suas limitações, dar valor para suas conquistas e perceber que suas virtudes são infinitas, e estão disponíveis a todo momento para favorecer a você mesmo.
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