Somos de queratina!
(Por Michel Cutait)
A natureza tem soluções incríveis para resolver problemas e permitir a evolução, o crescimento e a liberdade dos seres vivos. Essas soluções podem servir de lição e de exemplo para todos nós. Uma delas é o fenômeno dos artrópodes. Ou melhor, o fenômeno do crescimento dos artrópodes.
Há diversas espécies de artrópodes, entre lagostas, camarões, insetos, e uma infinidade de outros. Mas o que interessa nesta metáfora é o processo de crescimento desses animais, porque pode nos revelar uma compreensiva solução para muitas das nossas situações que exigem nossa força, nossa coragem e nossa vontade de dar a volta por cima, de recomeçar, de levantar dos tombos da vida e de voltar a sermos livres.
Aí que entra o fenômeno do crescimento dos artrópodes. Eles desenvolveram um mecanismo muito interessante para solucionar o problema do crescimento. Esses animais são protegidos por um esqueleto externo (exoesqueleto) que os envolve como uma poderosa armadura. Uma armadura feita, principalmente, de queratina e quitina, que são substâncias muito resistentes, rígidas e duras. Mas como os artrópodes fazem para crescer e romper essa “armadura” de queratina?
Para conseguirem crescer, esses animais passam por um processo de transformação que consiste num grande esforço para reduzirem sua massa corpórea, diminuírem de tamanho interno, voltarem a sim mesmos, economizarem energia, e começarem a desenvolver uma nova camada dessa “armadura”. Neste ponto, a nova casca é interna e ainda é muito mole e desprotegida, mas isso permite que o animal tenha amplitude para crescer e se desenvolver, até que, em determinado momento, ele rompe a casca antiga, vencida, sofrida e desgastada e abandona sua “armadura”.
Livre do esqueleto antigo, ele passa viver com sua nova casca que não lhe oferece tanta proteção porque ainda está frágil e em processo de consolidação, mas, passado certo tempo (que, nos artrópodes, costuma ser breve), a nova casca está maior, mais resistente e mais poderosa que a antiga. Enfim... o animal consegue crescer e se tornar melhor, mais preparado, protegido e mais forte para enfrentar as adversidades da sua vida.
Nós somos assim também, nós também somos de queratina!
Quem de nós nunca enfrentou uma situação de perda, de desfalque, de sucumbência? Quando perdemos um grande amor e ficamos com o coração rendido, órfão e desconsolado? Quando investimos nossa dedicação, nosso amor e nosso tempo na vida de outra pessoa e ela não nos corresponde? Quando somos enganados, trocados, traídos, humilhados? Quando nosso projeto de vida se esmorece pela tormentosa e imprevisível ocorrência de fatos negativos? Tantas situações são possíveis para nos derrotar, que precisamos estar preparados, prontos e conscientes de que somos capazes de recomeçar, de lutar e de voltar a sermos livres e fortes.
Nessas situações, tudo que seja possível fazer para crescermos, retomarmos as rédeas da nossa vida, superarmos nossos obstáculos e sermos pessoas melhores, mais fortes e mais preparadas para enfrentar o que vier pela frente será muito importante para continuarmos íntegros, ilesos ou continuarmos firmes. Então lembremos do crescimento dos artrópodes.
Por exemplo, quando somos enganados, traídos, abandonados pela pessoa que investimos nosso amor, por quem fizemos juras de fidelidade e com quem sonhamos compartilhar nossa vida, imitar os artrópodes pode ser uma solução muito libertadora, segura e eficiente.
Então, sejamos tolerantes, indulgentes, parcimoniosos e humildes com nossa perda e deixemos nosso coração se recuperar, voltemos a nós mesmos, deixemos o tempo desdizer o passado, juntemos todas nossas forças, economizemos energia e lutemos para voltar a crescer.
Às vezes, precisamos diminuir de tamanho para sermos capazes de voltar a crescer, às vezes precisamos dar um tempo para nosso coração conseguir se recuperar, às vezes precisamos aceitar nossas perdas e reorganizar nossas íntimas vontades para podermos nos tornar pessoas mais fortes, mais vigorosas, mais resistentes e mais preparadas para a vida, exatamente como os artrópodes.
Pode ser que esse processo leve um mês, pode ser que leve seis meses ou mais que um ano, cada um de nós tem seu próprio tempo de recuperação, mas se nos permitimos a isso e reconhecermos em nós mesmos que temos todos os recursos necessários para superarmos todas as adversidades, seja no amor, seja no trabalho, seja na vida, certamente, teremos uma chance de conseguir trocar a “armadura” do nosso coração e voltarmos a ser felizes, realizados, capazes e vitoriosos.
E com um coração maior e mais resistente, poderemos aproveitar as novas oportunidades, desfrutar incríveis descobertas, viver nossa inexorável liberdade de tentar novamente, de tentar de uma forma diferente, e poderemos aprender que também somos de queratina, e que não há nada nessa vida que não nos faça capazes de superar, de crescer e de sermos cada vez melhores.
1 comentários:
Ninguém comenta isso aqui não? É fantástico! Keep walking.
Abs!
Alan Campos
Enviar um comentário